Vida em quarentena.

Vida que segue. Hoje, assim como ontem, em home office. Hoje pela manhã eu agradeci a Deus pela vida que continua em curso e esta ação me pareceu ter ainda mais sentido. A vida segue diferente. Com novos cuidados a tomar, novas maneiras de olhar o outro, novas rotinas, ritmo, sentimentos, incertezas, desafios, aprendizados… Quanta coisa! Todo este estado de coisas me faz registrar um pouco o cotidiano. Talvez este apontamento nos ajude a repensar os aspectos comuns da vida.

Há algum tempo que trabalho em casa com Design Gráfico, ilustrações e desenhos. Eu já tenho meu horário de trabalho e meu canto da casa, mas, nestes dias é diferente, com novas preocupações e novas prioridades. Tantas sensações, cheiros, sons, um outro ritmo, uma composição em outro tempo. Há um cheiro bom de comida caseira que sobe pela janela várias vezes ao dia. Cheirinho de pão no final de tarde, bolos no forno e as vezes de doce queimando. Mas o cheirinho de queimado também é parte do aprendizado. Cheiro de vida que segue. Com resiliência vamos aprendendo com um dia depois do outro, um bolo melhor do que outro. Ontem a tardinha um destes aromas me levou pra cozinha e eu fiz o meu de laranja com cenoura. Enquanto cozinhava eu conversava com Deus em oração e pedi por cada vizinho neste tempo, que sejam abençoados e que sejam livres do mal. Pedi também pela humanidade toda, mas, além da humanidade que seja salvo cada pessoa, cada indivíduo.

Graciela Campos Jokowski, Quarentena e lápis de cor, março de 2020

Ontem eu parei um pouco o trabalho e fui comprar mantimentos para a casa. A casa é nossa vida agora e não queremos que falte nada, mas sabemos que se faltar e for detalhe daremos um jeito. Prosseguiremos. Comprei só o que realmente importa para alguns dias, porque as muitas pessoas irão precisar e estamos todos no mesmo time. Desta vez não fui no mercado habitual das minhas compras, mas optei pela quitanda do bairro. Comprei frutas e verduras, isso não pode faltar. Tenho decidido pela padaria, o açougue, o mercadinho, a loja de produtos de limpeza. As compras são ótimas sem as aglomerações dos grandes mercados e também é uma forma de ajudar os pequenos comércios do bairro. Eles devem seguir em vida e continuar nos servindo por muito tempo ainda.

Graciela Campos Jokowski, Quarentena e Quitanda, março de 2020

Eu sempre gostei de abraços, algo que me veio de nascença e que persiste até hoje. Dizem que quando pequena eu gostava de correr para abraçar meu avô. Ele era uma ótima pessoa, muito sério e rígido e não gostava muito dos contatos físicos. Mas eu, ainda pequena, sempre o encontrava para abraçar e ele então respondia meu carinho com o seu abraço raro. Penso que esta atitude o fazia sorrir. Hoje nessa situação de distanciamento e isolamento é natural sentir falta dos abraços físicos, mas podemos continuar a oferecer amor. Nestes dias o carinho é demonstrado de outras maneiras, e talvez a maior delas seja a atitude de prevenção. Lavar as mãos, deixar os sapatos na porta de casa, cuidar dos que estão perto, fazer uma oração sincera. São atitudes de cuidado, pequenos gestos tão simples como um abraço apertado mas que pode fazer muita diferença. Ficar em casa, falar de longe, ver de longe, amar de longe são ações que fazem agente se sentir mais perto.

Graciela Campos Jokowiski, Quarentena e porta da casa, abril de 2020

Vida que segue. #acredite. Acho que o colega Fabio Luiz Witzki me inspirou nestes registros com a sua campanha do #acredite.